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REVISTA MULTIDISCIPLINAR N° 03 - JUNHO DE 2007 / ISSN 1980-5950

ARTIGOS
Aspectos históricos da Escola Britânica de Geografia:

HORNES, Karin L*1
PESSERL, Camila P.*2
RIBEIRO, Eduardo A. Werneck*3
SCHULER, Denise*4
STEFENON, Daniel*5
UEJIMA, Henrique S.*6

Resumo: No final do século XIX para o século XX, alguns países desfrutando os benefícios da vanguarda do capitalismo, procuraram consolidar a construção de um Estado-Nação moderno e forte. A modernidade e a força implicavam posições políticas e econômicas que por meio de novos instrumentos, pudessem legitimar não apenas a presença física do país nas relações internacionais, mas a referencia intelectual nas discussões sobre o futuro do mundo. A partir desta concepção, estes objetivos seriam alcançados com a introdução de novos elementos técnicos e científicos que fomentassem a criação e a circulação de novas idéias e modelos de progresso, modernização e mudança social. Ao refletirmos sobre a Escola Britânica de Geografia, não se pode poder de vista o processo de transição ao capitalismo visto pela comparação das trajetórias dos principais Estados Nacionais europeus (especialmente a Alemanha) em suas relações de disputa e influência de poder sobre o espaço mundial. A análise converge para a emergência do capitalismo liberal na Inglaterra e a constituição da hegemonia inglesa no século XIX até sua crise profunda no final da década de vinte no século XX.

Palavras- chaves: Geografia, Mackinder, Royal Geograph Sociaty, Estado

Abstract: At the end of the XIX century, some countries ome countries enjoying the beneficios of the vanguard of the capitalism, had looked for to consolidate the construction of a modern and b State-Nations.The Modernity and the force implied politicas and economic positions that by means of new instruments, could not only legitimize the physical presence of the country in the international relations, but the intellectual referencia in the quarrels on the future of the world. When reflecting on the British School of Geography, if the process of transistion to the capitalism seen for the comparison of the trajectories of the main European National States (especially Germany) in its relations of dispute and influence of being able on the world-wide space cannot be able of sight. The analysis converges to the emergency of the liberal capitalism in England and the constitution of the English hegemony in century XIX until its deep crisis in the end of the decade of twenty in séc XX.

Key – words: Geography, Mackinder, Royal Geograph Sociaty, Modern State.

1 - INTRODUÇÃO

A escola britânica de geografia influenciou e, em certo sentido ainda influencia, a construção do conhecimento em diversas instituições pelo mundo. Há que se destacar, portanto, que atualmente não é mais suficiente caracterizar uma escola de pensamento a partir apenas de seu país de origem, mas sim a partir de premissas em comum encontradas em diversas escolas em muitos países. O território visto somente enquanto Estado-Nação perde sentido em um mundo globalizado, e o mesmo ocorre com as escolas de pensamento.
O intuito, com o presente texto, é tratar da escola inglesa ainda enquanto tal (em um período histórico em que era possível tal divisão epistemológica) de acordo com os preceitos de seu principal representante, Halford J. Mackinder. Para tanto, será estudado o período que compreende desde o século XIX até meados do século XX, com enfoque à escola em questão, 
Neste sentido, inicia-se essa análise por uma breve descrição do contexto político-econômico vigente neste período, em seguida aborda-se o surgimento da Royal Geographycal Society e sua importância para a consolidação de uma Escola Britânica de Geografia. A abordagem dos dois principais expoentes do pensamento britânico de então – Halford J. Mackinder e Lawrence D. Stamp – é objeto de destaque para que enfim se possa realizar algumas considerações.

 2 - aspectos relevantes ao surgimento da Escola Britânica de Geografia

Durante o final do séc. XIX e início do século XX, as jovens potências européias procuraram consolidar a construção de um “Estado-Nação” moderno e forte, desfrutando assim dos benefícios da vanguarda do capitalismo. A modernidade e a força implicavam posições políticas e econômicas que, por meio de novos instrumentos, pudessem legitimar não apenas a presença física do país nas relações internacionais, mas as referências intelectuais nas discussões sobre o futuro do mundo.
A partir desta concepção, muitos objetivos seriam alcançados com a introdução de novos elementos técnicos e científicos que fomentassem a criação e a circulação de novas idéias e modelos de progresso, modernização e mudança social. Assim a Inglaterra o fez.
Associado ao pensamento filosófico determinista com novos elementos na classe social (a burguesia, trabalhador livre e o protestante) consolida, desde a Revolução Gloriosa (1688), o Estado inglês em um novo papel na condução das relações políticas que envolviam o país. 
Sob a ordem da sociedade civil legal, o país cria condições para que a burguesia desenvolva economicamente as relações capitalistas, que por sua vez consolide o principio da propriedade privada como fundamento deste sistema econômico. A burguesia financia as ciências na busca de novas tecnologias. Assim, com essas ações ajuda a consolidar o novo paradigma que se instaurava, a história é escrita por homens, pela ciência e não pela religião.
No determinismo científico tudo o que existe precisa de uma causa. No século XIX, Augusto Comte ensinava que a liberdade humana não passava de mera ilusão. O filósofo positivista Taine (1828-1893) repetia que a vida se condicionava por três fatores diferentes: raça, meio e momento. Assim, os positivistas acreditavam que a carga biológica herdada, determinava o comportamento. Aceitavam igualmente que o meio com seus fatores geográficos, climáticos e socioculturais, não permitiam escolhas genuínas. E havia ainda o momento: subordinando os indivíduos a viverem de acordo com os valores de sua época.
 O pensamento liberal político inglês não fugia deste contexto, pois estava estruturado  nas características da relação do meio ambiente que influenciam decisivamente as coletividades humanas e suas formas de organização, moldando seu caráter nacional e desenvolvendo neles uma vocação predominantemente marítima ou continental.  Um pensamento reducionista. O que mostra como a discussão filosófica deste período, portanto, gira em torno da condição da liberdade humana, face uma interpretação determinista ou não da natureza. O objetivo é compreender até que ponto o homem é livre para agir, segundo sua vontade. Uma resposta satisfatória a essa demanda filosófica permite que se possa atribuir racionalidade e responsabilidade às pessoas, deixando de lado considerações de valor subjetivo, fundo psicológico ou religioso.
No momento em que se reflete sobre a Escola Britânica de Geografia, deve-se considerar o impacto promovido pela consolidação do capitalismo nos principais Estados Nacionais europeus (especialmente a Alemanha) em suas relações de disputa e influência de poder sobre o espaço mundial. Esta análise converge para a emergência do capitalismo liberal na Inglaterra e a constituição da hegemonia inglesa no século XIX até sua crise profunda no final da década de 1920. Este período em questão para Hobsbwawn (1995), por exemplo, é chamado de o “longo século XIX”. Para este historiador, dentro da análise marxista, este foi um período de processo de revoluções de longa duração que começou em 1775 e se estendeu até metade do séc. XX.
Incorporar a Geografia no discurso da política de Estado foi à estratégia que a Inglaterra planejou para absorver estas transformações. Em seqüência ao pensamento geográfico físico empírico-descritivo, de influência principal de Humboldt, a necessidade então passou a ser aplicar essa Geografia em benefício do Império. Era preciso ensinar que a Inglaterra tinha um papel a zelar, e que o império britânico por tradição deveria manter sua primazia política diante das mudanças. Trata-se do período de reinado da rainha Vitória, lembrada como aquela que cunhou a construção de um império mundial pelo complexo militar-empresarial.
Entre os grandes pensadores desta escola, Halford J. Mackinder tem seus créditos mais louvados quando nos referimos a este tema. Não apenas por seu pioneirismo, mas porque o referido autor construiu uma resposta a este contexto. Sobre o papel da Geografia neste debate, dever-se-ia mudar o foco das explorações e descobertas realizadas durante a era Colombiana para uma observação mais aprofundada e sintética sobre a nova era que chegara – pós-Colombiana. (DOODS; SIDAWAY, 2004)
A escola britânica tem uma rica produção descritiva e um papel importante na produção do conhecimento geopolítico no mundo. No entanto, cabe aqui lembrar que não são apenas os seus principais intelectuais e suas produções que construíram para esta qualidade, mas também a participação de algumas organizações como a Royal Geographycal Society na formação de seus pensadores, estrategistas, cuja tentativa de encarar o mundo em pleno processo longo revolucionário (no sentido hobsbwawniano) buscou mecanismos de ações de intervenção mundial, assim assegurando o papel primaz na geopolítica mundial.

3 - O papel da Royal Geographycal Society (RGS) 

Do ponto de vista formal, as primeiras cadeiras de Geografia surgiram no final do século XIX, em 1887 em Oxford. A Sociedade de Geografia de Londres (Geographical Society of London) foi fundada em 1830, com a missão de desenvolver a ciência geográfica no Reino Unido. A Royal Geographycal Society (RGS) surgiu logo após com a incorporação de outras entidades como a “Association for Promoting the Discovery of the Interior Parts of África(*7)” e a “Raleigh Club(*8)” e a “Palestine Association(*9)”. O reconhecimento como entidade real veio com a rainha Vitória(*10) em 1853, dando assim a condição de usar o nome de Sociedade Real de Geografia (Royal Geographycal Society - RGS). O reconhecimento da Sociedade de Geografia como entidade a serviço da realeza, assim para as políticas britânicas na época vitoriana, fundamenta a necessidade de abordarmos (se abordar) também a sua contribuição da construção da Geografia no Reino Unido.
Para Blouet (2004), a importância da RGS junto à Rainha Vitória era fundamental, haja vista o quadro de fundadores que prestigiavam esta associação.  Henry Nottidge Moseley, professor de anatomia humana e comparativa, é lembrado como um dos nomes da vanguarda cientifica do séc. XIX britânico. David Livingstone – medico e explorador da África central, foi o primeiro europeu a ver as Cataratas Vitória. Sir Ernest Henry Shackleton, explorador britânico-irlandês, sob seu comando, chefiou a primeira exploração à Antártida. Sir Edmund Percival Hillary, australiano, foi o primeiro homem a chegar ao cume do monte Everest. Charles Darwin, o mais famoso naturalista também foi membro fundador, entre outros, desta associação. Perceba-se que todos tinham laços fortes com a realeza, assim, o que nos sugere que todos acompanhavam o pensamento da política estatal da época, representando excelência em exploração, orientação cientifica, pesquisa e política no Reino Unido no final do séc. XIX.
Tal projeto de Império corresponde às mais avançadas políticas imperialistas e capitalistas: combina a força crescente das mega empresas e das potências políticas dos países. De fato, este tipo de projeto articulou o imperialismo ao capitalismo, até tornar cada um deles incompreensível sem o outro. O papel da RGS era criar condições para que este propósito tenha sucesso. Muitas das explorações que a RGS propunham eram engrenagens de um sistema geopolítico muito maior.
Em nome da vanguarda capitalista, a RGS foi o principal ponto de encontro e discussão sobre o papel da Geografia em assuntos externos. Em 1860, a RGS começou a prover uma série de fóruns para discutir os interesses no Ensino de Geografia. Mas apenas em 1880, um grupo de reformistas da própria RGS tinha decidido(*11) que o professorado a ser formado para as escolas públicas tinham que passar tanto por Cambridge ou Oxford por uma espécie de curso de aprimoramento para dar respaldo nas futuras reformas que pretendiam. Além de querer melhorar o quadro de professores, havia a necessidade de pensar em criar graduações em Geografia, pois os ingleses lutavam contra o tempo.         
Kearns (2004) ao estudar esta questão, cita o trabalho de James Scott Keltie (1885) membro desta comissão que tinha diagnosticado como era tratada a Geografia. Em linhas gerais seu relatório continha que no Reino Unido, a Geografia era mal ensinada para a classe média na escola pública.  Entre as observações Keltie apontou a defasagem em horas de aula durante a semana em relação às outras disciplinas e que ainda não haviam sistematizado um curso no nível superior em Geografia. Tendo ciência desta situação, o então presidente da RGS, Henry Moseley pressionou a criação em Oxford um seminário de estudos sobre Geografia, pois para Kearns (2004, p. 338):

Until Oxford and Cambridge taught geography and, more importantly, examined applicants in geography, the public schools would leave the subject alone. While Britain had no university chairs in geography, there were no fewer than 12 in Germany. Perhaps the most interesting part of the report are the opinions it records from those who were opposed to the establishment of geography in either the universities or the public schools.

A busca de um rigor científico para a Geografia na sua formação enquanto disciplina era observada tanto por seu valor pedagógico (enquanto conhecimento) como também nos valores a serem ensinados. As diretrizes que a RGS tinha pensado para o ensino de Geografia já estavam claras após este episódio.  Os ofícios da RGS, contendo o referido estudo acima citado, encaminhados para as instituições (Oxford e Cambridge) já desenhavam um perfil político adotado para a Geografia a ser construída, o liberal.
O papel da RGS adotada por seus membros, trouxe este contexto importante sobre como, por exemplo, Mackinder irá desenvolver o seu pensamento sobre Geografia, sobre isto Kearns (2004) comenta:

(…)Their sense (RGS) of the applicability of geography was likewise pitched at the schoolchild for, given that the ‘interests of England are as wide as the world’, ‘it is, therefore, a matter of imperial importance that no reasonable means should be neglected of training her youth in sound geographical knowledge’(…)

Desta forma não podemos negar a importância da Sociedade Real de Geografia não apenas como entidade científica prestadora de serviços ao Estado, mas sim por ser um dos principais pólos políticos britânico na época vitoriana. A Geografia tinha um compromisso para com o Império.
Na perspectiva das ações globais de um império que buscava a sua manutenção de seu prestígio no mundo “globalizado”, Mackinder olhando o crescimento de países vizinhos, lança sua principal obra “The geographical pivot of history” que será um referencial nos estudos de geopolítica no mundo.  Já L. D. Stamp produziu uma obra, olhando para as ações do Estado inglês na escala nacional. Pensar na reorganização das forças produtivas no interior do país era também escopo destes pensadores. A seguir, algumas considerações sobre estes dois importantes geógrafos britânicos.
 
4 - Halford Jonh Mackinder (1861-1947)

Halford Mackinder foi um zoólogo britânico, formado por Oxford (1880-83), instituição onde também se tornou um pesquisador da geografia física e da distribuição global de plantas e animais. Foi discípulo de Henry Nottidge Moseley, que trabalhou juntamente com Charles Darwin e Huxley em expedições científicas.
Em 1899, foi o primeiro homem a escalar o monte Quênia, em uma de suas expedições. Os seus objetivos, porém, não foram apenas científicos (BLOUET, 2004). Com a conquista do Quênia, Mackinder já demonstrava sua visão imperialista, desejando com isso penetrar o mapa do vasto interior da África, na intenção de conhecer, mapear e descrever as áreas. Dessa forma, o monte Quênia foi apenas uma parte inicial da expansão imperial que se iniciava. Com o desenvolvimento das estradas de ferro, financiadas pelo governo britânico, no interior da África, intensificou-se a exploração pelo domínio das terras africanas. A partir daí, o governo britânico foi estabelecendo o controle imperial sobre o Quênia, Uganda e outras terras do além-Nilo (BLOUET, op cit).
Mackinder entra para a história da Geografia quando desenvolve a teoria do poder terrestre sobre a concorrência pela hegemonia mundial. Segundo Claval (1994, p. 35) “os primeiros grandes debates geopolíticos referem-se ao papel do mar no progresso e na supremacia dos países anglo-saxões”. Halford Mackinder põe em xeque, entretanto, a tese mahaniana, ao atribuir à Área Pivô um papel estratégico na política de poder das grandes potências (Fonseca, 2003).

No papel estratégico atribuído à Pivot Area – região-pivô – na política de poder das grandes potências. “O termo Pivot Area designava o grande núcleo do continente eurasiático e seus limites correspondiam, em linhas gerais, ao gigantesco território da Rússia” (MELLO, 1999, p. 16).

Em termos de estratégia mundial de poder, isso significava que caso o poder terrestre pudesse obter uma frente oceânica poderia ser capaz de desenvolver um poder anfíbio que lhe possibilitaria concorrer com o poder marítimo, simbolizado na época de Mackinder pela Inglaterra. No cerne da reflexão de Mackinder se encontraria a possibilidade de que o poder marítimo inglês viesse a ser suplantado pelo poder terrestre russo-alemão.
Para esse geógrafo britânico, o amplo núcleo do continente asiático, correspondente ao território da Rússia czarista, de imensos recursos, permite, ao Estado que o controlar, o desenvolvimento de um grande poder terrestre.

Fonte: Mello (1999)

A Figura 01 demonstra o mapa, apresentado por Mackinder em conferência em 1904. Nele observa-se a Área Pivô e seu entorno, compreendido por dois grandes arcos. O primeiro – Crescente Interno – corresponde ao espaço natural de expansão do poder terrestre, em busca de um poder anfíbio, e, ao mesmo tempo, à primeira linha de defesa do poder marítimo, à época: o império alemão, o austro-húngaro e o turco, Índia e China. Já o Crescente Externo refere-se à área de domínio do poder marítimo, onde se localizam suas grandes potências: Inglaterra, Estados Unidos e Japão, além dos domínios britânicos do Canadá, África do Sul e Austrália (FONSECA, 2003).
Em 1919, no livro Democratic ideals and reality: a study in the politics of reconstruction, Mackinder reelabora o conceito de Área Pivô, flexibilizando os seus limites geográficos e passando a denominá-la heartland, terra-coração. Ele defende, nessa obra, a idéia de que os fenômenos geopolíticos podem ser explicados a partir da luta travada entre o heartland e os crescentes concêntricos que o circundam: “Quem domina a Europa Oriental controla o Heartland; quem domina o Heartland controla a World Island; quem domina a World Island(*12) controla o mundo” (MACKINDER, 1919 apud MELLO, 1999, p. 56).
Dessa forma, reconsidera a relação entre massas continentais e oceânicas. Ele defende a idéia da existência de uma unicidade das águas do planeta, que formariam o Midland Ocean, e englobariam toda a bacia do Atlântico Norte, seus mares subsidiários (Caribe, Báltico e Mediterrâneo), suas áreas insulares (Inglaterra, Islândia e Groelândia) e suas regiões marginais (Europa Ocidental e leste da América do Norte). O pensamento geopolítico e geoestratégico de Mackinder é, aparentemente, marcado pelo determinismo geográfico.
Para Mackinder, a permanência do poder marítimo anglo-americano se baseia no enfraquecimento dos poderes emergentes na Eurásia. Impedir a união entre a Alemanha e a Rússia bolchevique torna-se um imperativo, que Mackinder assume, no campo diplomático, após a Primeira Guerra. Ele reforça as ações políticas da França no sentido de instituir um cordão sanitário entre esses dois países. Disso deriva a criação da Polônia, Tcheco-Eslováquia, Hungria, Iugoslávia, Bulgária, Romênia e Grécia, a partir de territórios desmembrados dos impérios russo, alemão, austríaco e turco.
O heartland torna-se muito menor que a Área Pivô, passando de 23 milhões a 13 milhões de km2 (Figura 02). Claval (1994 apud FONSECA, 2003) entende, porém, que Mackinder, nesse opúsculo, se mantém fiel à sua idéia-chave: a oposição de um núcleo central a uma periferia.
As hipóteses que tanto preocupavam o geógrafo inglês, porém, não se sustentaram. Durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundial houve, ao contrário do sustentado pela teoria do poder terrestre, a aliança de poderes terrestres e marítimos para vencer poderes de igual natureza geográfica. Ademais, o fim da Guerra Fria mostrou a vitória do poder marítimo americano sobre o poder terrestre soviético. Ou seja, bem feitas as contas, no decorrer do século 20 a teoria do poder terrestre não conheceu outra coisa senão sucessivas derrotas conceituais.

Fonte: Mello (1999, p. 67)

A obra de Mackinder não caiu no esquecimento. Para Mello (1999), Mackinder é o iniciador de uma linha do pensamento geopolítico de extrema validade, no período pós-guerra fria. Claval (1994 apud FONSECA, 2003) informa que Mackinder tem outros atributos que lhe valem a perpetuidade da memória. Ele assumiu um papel decisivo na introdução da geografia moderna no sistema educacional britânico. À geografia, ele consagrará sua longa vida de professor universitário, de político e de homem de ação.

5 - Lawrence Dudley Stamp (1898–1966)

Indiscutivelmente reconhecida por suas ocupações acerca das questões geopolíticas, a Geografia Inglesa também produziu relevantes contribuições em outros campos do conhecimento geográfico, como o planejamento. Andrade (1987) afirma que as questões internas, também compuseram a pauta de discussões da qual trataram os geógrafos do Reino Unido. Assim, Lawrence Dudley Stamp, dentro desse contexto, foi um dos maiores expoentes.
Sentindo a necessidade de o Reino Unido possuir de maneira mais detalhada um levantamento do uso da terra em seu território, durante a década de 1930, Lawrence Dudley Stamp foi coordenador de um gigantesco trabalho(*13), do qual resultou esse mapeamento. De acordo com o CEH (Centro de Ecologia e Hidrologia) do Reino Unido, Stamp, de maneira pioneira na época, liderou um trabalho feito por milhares de crianças britânicas supervisionadas pelos seus professores de Geografia, jovens geógrafos e voluntários. As terras cultiváveis, as pastagens, as áreas de floresta, os campos, e as áreas construídas foram sistematicamente mapeadas nesse trabalho, que até hoje possui uma importância considerável, principalmente no que se refere aos estudos sobre a dinâmica do uso da Terra no Reino Unido.
Dessa maneira, de acordo com Andrade (1987), foi justamente durante a Segunda Guerra Mundial que o professor e geógrafo Stamp ofereceu imprescindíveis contribuições à Coroa. Durante o bloqueio imposto pela Alemanha, Stamp trabalhou no planejamento e otimização do uso da terra e da produção agrícola, tendo em vista a justificável preocupação quanto ao abastecimento de alimentos, visto que a fome, nesses tempos de conflito, é sempre uma ameaça eminente. Como se não bastasse, também contribuiu com o processo de reconstrução do país, onde propôs uma nova e funcional maneira de arranjamento do espaço urbano.
A partir disso, fica-nos claro o fato de que Stamp, utilizando-se de instrumentos de uma Geografia considerada Pragmática, Quantitativa, amplia o alcance da Geografia Inglesa, consolidando sua relevância histórica e epistemológica dentro do processo de construção da própria ciência geográfica.

6 - CONSIDERAÇÕES FINAIS

Por diversos motivos Halford Mackinder é considerado um marco na história da Geopolítica. Sua concepção do estudo da Geografia visando objetivos práticos, por si só, já caracteriza uma grande mudança. A visão imperialista de Mackinder, por sua vez, encontrou nessa nova era terreno bastante fértil, onde o conhecimento e mapeamento do espaço terrestre se faziam necessários, na corrida pela apreensão de novos territórios e traçada de novas estratégias.
Sua contribuição ao império britânico se deu, portanto, tecnicamente, na busca de informações importantes sobre as colônias e os territórios da área pivot. Foi, no entanto, a questão ideológica que representou o maior legado deste pensador. Em primeiro lugar, sua intenção de sedimentação do império criou uma escola de Geografia direcionada para seus fins políticos, onde todo estudo se justificaria de acordo com sua relevância aos interesses britânicos.  Mackinder sustentou sua Geopolítica sobre o que chamou de área pivot, (Eurásia, conforme visto) enquanto território ameaçador à integridade do Império Britânico.  Alguns autores o consideram um visionário, como Blouet (2004), já que o zoólogo teria previsto o fortalecimento militar continental da Alemanha e da Rússia, a Revolução Russa e a Primeira Guerra Mundial.  Mackinder teria lutado para preservar o Império Britânico da ameaça deste bloco que, segundo ele, seria o coração do mundo.
Outro viés de análise, talvez aquele de maior importância, foi o legado ideológico da escola de Mackinder. O anacronismo de suas idéias desenvolveu uma paranóia sobre o próprio império (VENIER, 2004). Segundo Kearns (2004), a idéia da superestimada ameaça russa e germânica gerou, através de Mackinder, o racismo e a aversão a esses povos do leste europeu e Ásia. Houve uma exacerbação do sangue inglês em detrimento dos demais. Toda essa pressão ideológica deu origem ao que se chamaria cem anos mais tarde de política do terror (HYNDMAN, 2004), tão conhecida após as tensões norte-americanas e asiáticas da atualidade. De fato, a geopolítica do governo Bush segue à risca alguns preceitos daquela criada por Mackinder, enquanto delimita um território-ameaça à sua integridade e projeta, em sua própria população, o sentimento de pavor e racismo contra os povos inimigos. A mesma “paranóia” de Mackinder se percebe na exacerbação do poder bélico do Oriente Médio, na busca de armas de destruição em massa. A animosidade instalada na política do pensador britânico em relação aos povos da Eurásia gerou tensões necessárias apenas à coesão do Império, como se vê atualmente no governo norte-americano. A busca à integridade imperial é a mesma, hoje através do controle do petróleo.

7 – referências bibliográficas

ANDRADE, M.C. de.  Geografia, Ciência da Sociedade: Uma Introdução à Análise do Pensamento Geográfico. São Paulo, 1987.

BLOUET,  B.W. The imperial vision of Halford Mackinder. In: The Geographical Journal, Vol. 170, No. 4, December 2004.

DOODS, K.& SIDAWAY, J. Halford Mackinder and the ‘geographical pivot of history’: a centennial retrospective. In: The Geographical Journal, Vol. 170, No. 4, December 2004.

FONSECA, S.R.B. M. Uma introdução à geopolítica clássica: de Ratzel a Haushofer. In: II Simpósio Regional de Geografia, 2003. Anais..., Uberlândia/MG, 2003.
HYNDMAN, Jennifer – Revisiting Mackinder 1904 – 2004 - In.: The Geographical Journal, Vol. 170 No. 4, December 2004.

MACKINDER, H. J.  Geographical Pivot of History. In: The Geographical Journal, vol.27, 1904.

MELLO, L. I. A. Quem tem medo de geopolítica? SP: Editora Hucitec/EDUSP, 1999

KEARNS,G. The political pivot of geography. In: The Geographical Journal, Vol. 170, No. 4, December 2004.

VENIER, Pascal – The geographical pivot of history and early twentieth century geopolitical culture -  In : The Geographical Journal, Vol. 170 No. 4, December 2004.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

HOBSBAWM, Eric J. “A Primeira dos Povos”. In: ______. A Era do Capital (1848-1875). Rio de Janeiro: Paz & Terra, 1995.

TOSTA, C. O. Teorias geopolíticas. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exécrcito, 1984.

VESENTINI, J.W. Novas geopolíticas. SP: Contexto, 2000.

*1 Doutoranda da UFPR.
*2 Arquiteta, mestranda da UFPR.
*3 Docente da Uniesp e doutorando da UFPR.
*4 Docente da Faculdade Assis Gurgacz – Cascavel e mestranda da UFPR.   
*5 Mestrando na UFPR.
*6 Mestrando da UFPR.
*7 Entidade que tinha como papel promover os resultados científicos das expedições que ocorriam na África naquele momento.
*8 Era um clube noturno de desbravadores reais onde podiam trocar experiências vividas nos novos lugares descobertos
*9 Era uma fundação que reunia intelectuais na época para entender os conflitos que ocorriam na Terra Santa no começo do século XIX para subsidiar a intervenção européia – liderada pela Inglaterra na região.
*10 O reinado da rainha Vitória foi de 1837 a 1901.
*11 Deve-se lembrar que era atribuição desta associação, tudo que era referente a promoção da ciências Geográfica.
*12 Segundo MELLO (1999) a World Island é um conceito mackinderiano, que rejeita a idéia tradicional de que possam existir quatro oceanos e seis continentes. Segundo a idéia de Mackinder, existia na verdade só um grande oceano, cujas águas recobririam três quartos da totalidade do globo. A isso o geógrafo inglês chamou de World Island .
*13 Sobre este trabalho acessar: http://www.visionofbritain.org.uk/maps/map_lib_page.do


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